segunda-feira, 16 de julho de 2012

O paraíso decaído





Por Zuenir Ventura (*)

Nesse ritmo, já que Luís Estêvão foi cassado em 2000, o Senado parece levar doze anos para se livrar de um colega inconveniente. Fico imaginando quem será a bola da vez em 2024 ou como será o Brasil em 2027, quando Demóstenes Torres retornar à cena política.

Será que vai acontecer o que aconteceu com Fernando Collor, que permaneceu inelegível por oito anos, voltou e está aí como caçador, ou melhor, cassador, ao lado de Renan Calheiros, Jader Barbalho, Gim Argello, que já estiveram com a corda no pescoço?

Eu disse “retornar à cena política”? A rigor, ele nem saiu. E esse é um fato que soa como deboche ou no mínimo como uma incongruência institucional. Como é que alguém, declarado sem condições morais por seus próprios pares, já que colocou o mandato a serviço de um bicheiro, pode no dia seguinte reassumir o cargo de procurador do Ministério Público de Goiás, que é comandado por seu irmão Benedito Torres? E isso com direito a salário de R$ 24 mil, dois assessores e outras regalias. Tudo dentro da lei.

Para os mais otimistas, a cassação do senador é um fato positivo que por si só reabilita a imagem do Senado. Há controvérsia. Pensando no substituto, há quem diga que ruim com Demóstenes, pior sem ele.

Nas palavras de Carlinhos Cachoeira recolhidas pela polícia de uma gravação telefônica, Wilder Pedro de Morais, o suplente, lembra o Max de “Avenida Brasil”: “É um bosta” — um bosta de quem roubou a mulher, depois de tê-lo impulsionado na política, indicando-o para a chapa de Demóstenes ao Senado em 2010 (a diferença é que Max não é o corno, ele corneia. Aliás, nunca a imprensa foi obrigada a publicar tanto palavrão como agora).

O mais grave, porém, não é essa condição de traído de que ninguém está livre, e sim as suspeitas que recaem sobre ele antes mesmo de assumir. Diálogos interceptados pela polícia demonstrariam a intimidade do bicheiro com esse seu então protegido político.

Nessa novela real em que se mente tanto, me intriga também estar por fora da linguagem jovem. Não sei o que quer dizer a expressão “força na peruca”, contida na mensagem da afilhada para o padrinho, que pelo menos nisso é sincero, não esconde a careca. O que significa? Cartas para a Redação, por favor.

Diante dos desvios do Senado, não há como não lembrar o grande Darcy Ribeiro, para quem a instituição era melhor do que o paraíso, pois “não é preciso morrer para chegar até ele”. Deve estar muito triste.

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(*) Publicado no Blog do Noblat em 14.07.2012. Bem se vê que o Zuenir Ventura não usa os mecanismos de busca na internet. Ela confessa não saber o que quer dizer a expressão “força na peruca”, achando que é uma linguagem de jovens. Alguns dos meus filhos, que ainda considero jovens, também não sabiam. Então eu disse, sabe de uma coisa, vamos à nossa memória moderna, o Google. Lá encontrei várias nuances do termo, mas, sempre com a conotação de “Não desanima não!”, “Vamos, você consegue!”, etc. Não mandarei cartas à Redação do O Globo, para o Zuenir. Apenas digo, que com tanta corrupção e tanta bosta envolvida neste caso do Cachoeira, temos é que nos voltar para o mapa do Brasil e dizer: “Força na peruca, Brasil!”, pois,  também já estamos carecas. Roubaram até nossos cabelos.

A alternativa e apelar para N. S. do Carmo, neste seu dia, para que nos proteja e nos livre deste paraíso decaído em que se encontra o Brasil. Hoje vou à procissão com toda "força na peruca". (LP)

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