Hoje dou o segundo passo de uma longa caminhada, que é mostrar uma versão do que foi Che Guevara, sem dourar a pílula, nem vê apenas o médico sonhador que penso ter sido apenas uma pequenina fase de sua vida, enquanto o monstro matava e esfolava em nome de uma revolução em que muitos acreditaram e que hoje sabe-se ter sido um grande desastre para a humanidade em termos de vidas ceifadas.
A busca do socialismo ou comunismo, uma terra de leite e mel onde todos tomam leite e mel todos os dias sem criar abelhas nem vacas, sempre existiu na história humana. Modernamente, já se sabe, depois de sonhos e mais sonhos, que os povos que mais tomaram leite e mel foram os que criaram abelhas e cuidaram de suas vacas com trabalho e suor, e na maioria das vezes, sendo proprietários de suas vacas de forma reconhecida por todos.
O ditado que meu pai dizia em minha juventude de que “é o olho do dono que engorda a boi” poderia ser dita como “é a mão do dono que tira mais leite de sua vaca” para simbolizar quão importante é o indivíduo e o direito de propriedade para um povo.
Até agora nunca se viu país nenhum que tivesse fartura para o seu povo eliminando o direito de propriedade e fazendo do indivíduo um mero apêndice do coletivo. A vida social é feita de indivíduos que existem por si mesmos e não em função da sociedade onde vivem. O socialismo sempre parte do pressuposto contrário que tenta submeter os indivíduos aos caprichos de uma sociedade abstrata e inexistente, pois o que existem são pensamentos ideológicos inventados por alguns que ficam explorando os outros.
Na época moderna o mundo assistiu à eclosão de um sistema social e econômico onde o indivíduo foi valorizado e a sociedade também. Os estudiosos deram o nome de capitalismo a este sistema, e muitos passaram a entender que não é da caridade nem da ajuda da sociedade que nasce a vontade de trabalhar e produzir, mas sim, da vontade de se sentir feliz de cada indivíduo. Eu não sou muito versada em Economia e quando tenho dúvidas recorro ao Zezinho, e ele me falou que a grande revolução da época moderna foi quando alguém descobriu que se se entregasse a responsabilidade da produção aos indivíduos, dando-os a eles os resultados deste produto, as pessoas produziriam mais e melhor, e todos seriam, no fim, mais beneficiados.
Tudo isto para começar a dizer que o Che Guevara que existiu na cabeça de muitos jovens e adultos e que ainda hoje vende camisas pelo mundo, não passou de uma interpretação errada de alguém, de que o capitalismo é um sistema de exploração do homem pelo homem. E em nome de superar este sistema social e econômico, foram cometidas por ele as maiores barbaridades que alguém pode cometer em termos de moralidade e de direitos humanos, com um "aparência selvagem, romântica e revolucionária", como a dele.
O que começo a dizer hoje e que tem como base o mesmo livro que citei em meu primeiro texto sobre o assunto (
aqui), mostra quanto foi mal para humanidade ter como ídolo alguém que se destacou pelo seu instinto sanguinário, não justificável nem mesmo em nome de Deus, quanto mais por uma “
revolução” que pretendia construir uma ditadura do proletariado e que apenas produziu a ditatura de Stalin, Mao, Fidel, Kim Jong-il e agora do Raul, e faliram todas depois de descobrirem que hoje nem operários mais existem. Todos hoje são capitalistas inclusive nossos socialistas tupiniquins. Qual a influência de Che sobre o coronel Eduardo, nosso governador? Sobre Miguel Arraes foi um chapéu de palha, que se foi. Sobra, de influência positiva, uma boina em Garanhuns.
Comecemos, para entender o Che, a falar um pouco do que era a Cuba de 1950. Aqueles que hoje são ainda a favor do comunismo ou do socialismo defendido por ele dizem que aquele país não passava de um bordel dos americanos repleto de prostitutas, mafiosos e cubanos miseráveis. Já outros, entre os quais me incluo, procuram destacar o progresso da Cuba anterior mostrando alguns números de qualidade de vida do seu povo, que eram bem melhores do que a média na América Latina.
Mesmo que os Michel Corleones (lembram do Poderoso Chefão?) tenham tido seus cassinos por lá, na época Cuba vivia um surto de crescimento e otimismo em termos econômicos, incentivado principalmente pelo turismo. Afinal tinha seus clientes internacionais mais ricos a apenas 150 quilômetros de distânica, que eram dos Estados Unidos. O crescimento levava mais cubanos à classe média e aquecia outros setores da economia, como a construção civil. Qualquer semelhança com o nosso BrasiL atual só não é perfeita apenas pelos nossos tamanhos.
Se hoje os cubanos fogem de seu país, na década de 1950 acontecia o contrário: imigrantes se mudavam para Cuba. Entre 1933 e 1953, mais de 15 mil judeus, 74 mil espanhóis e 7.500 alemães se mudaram para lá. Sobre essa época até mesmo Che Guevara afirmou que Cuba tinha um “padrão de vida relativamente elevado”.
Além disso o movimento contrário também era verdadeiro. Os cubanos ricos e da crescente classe média adoravam se divertir nos Estados Unidos. Parece até nossa classe C agora com o lulo/petismo e o real valorizado, e que Obama está adorando, ao ponto de eu estar doida para completar 60 anos para tirar o visto para entrar em seu país, sem precisar ir nem no consulado.
Carmem Miranda, Frank Sinatra, Nat King Cole e boa parte dos artistas famosos da época se apresentavam nos teatros e nos cabarés de Havana. Será que o Raul Seixas chegou a ir lá, depois do Fidel?
O nível de educação também era bom para os padrões latinos americanos, e havia a Universidade de Havana com seus cursos fortes de medicina, farmácia, biologia e direito (onde Fidel Castro estudou), além da escola de belas-artes.
O país crescia, mas, o problema estava na política. O presidente Fulgêncio Batista era um ditador e assassino como parecem ser todos os ditadores. Fidel Castro, era então o mais conhecido inimigo do ditador, se aproveitou desse clima de descontentamento, e seu movimento tomou vulto, mas com a promessa de serem uma opção pela democracia. Pelo menos, o movimento deveria ser animado pois tinha entre eles os donos da destilaria Bacardi (talvez daí o nome do drink Cuba Libre, que foi o único que provei em minha mocidade). Tanto que em 1959, tanto os guerrilheiros moderados quanto os empresários e os trabalhadores comemoraram a mudança de governo.
Livre da tirania de Fulgêncio Batista, a população estava querendo participar da política e confiante para construir uma democracia. Infelizmente para Cuba as coisas deram errado. Sorrateiramente, os integrantes do grupo de guerrilheiros que ganharam popularidade em Sierra Maestra, liderados por Fidel Castro, dominaram o governo provisório recém-instalado, expulsaram todos que pensavam diferente e declararam-se abertamente marxistas-leninistas, tratando de instalar a ditadura do proletariado num país onde existiam poucos, que assim pudessem serem chamados por Marx. Os opositores foram, no mínimo, expulsos do país ou presos. Um deles o Huber Matos, hoje com mais de 90 anos e exilado em Miami conta:
“O Movimento 26 de julho [foi uma tentativa em 1953, quando Fidel e outros jovens tentaram tomar um quartel e não deu certo. Fidel ficou dois anos presos, depois se exilando no México onde conheceu Che Guevara] não era comunista. Nós lutávamos para restaurar a democracia pluripartidária que tinha sido extinta com o golpe de Fulgência Batista. .... Mas então os Castros e Che levaram a revolução para uma ditadura comunista.”
Então o que houve foi uma revolução comunista dentro de uma revolução democrática. Sinto-me um pouco constrangida em afirmar que quase aconteceu o mesmo aqui em 1985 quando nos vimos livre da ditadura militar, mas, aqui tivemos Ulisses, Tancredo e o motivo do meu constrangimento, o Sarney, ao invés dos Castros e do Che. No entanto, seus admiradores continuam aí na batalha, todo ano visitando Cuba. Que Deus nos livre.
Aí então começou toda a saga do Che revolucionário com seu recado claro para aqueles que ainda tinham negócios privados em Cuba resumida na frase (já citada por mim):
“Jurei ante um retrato do velho camarada [Josef] Stálin não descansar até ver aniquilados estes polvos capitalistas.”
Se alguém tivesse um negócio em Cuba, ou mesmo no Brasil, e ouvisse isto de um dirigente com grandes poderes o que faria? Claro que “dava no pé”, (por menos do que isto o Lula e o PT quase levam o país ao caos pelo que diziam que iam fazer) e foi o que fizeram os produtores e empreendedores cubanos, entre eles os melhores artistas daquele país. E tudo continuou até hoje assim, tornando Cuba um deserto de novidades artísticas, pois, como dizia o Che “para construir o comunismo, tem de se fazer o homem novo”, com a crença que o homem é um ser maleável e que está pronto, como os macacos, para serem treinados para viverem enjaulados e executarem seus números para o distinto público que são seus dirigentes deitados em berço esplêndido. Como se sabe hoje, toda esta tentativa de transformar homens em macacos alimentados com bananas baratas ou mesmo com “bolsa família”, levou sempre à perseguição de todos aqueles macacos rebeldes que jogam a banana fora e querem usar seu trabalho para comprar o que quiserem, inclusive, na McDonald.
Isto era levado ao extremo com os jovens, e aqui eu cito uma frase dele citada pelo Guerrilheiro das Sete Colinas no Mural da AGD, sobre os jovens: “OS JOVENS... E EU ME VEJO COMO UM... NÓS PRECISAMOS ESTUDAR E ESTUDAR PESADO. NÓS NÃO DEVEMOS DIZER QUE MEUS OLHOS ARDEM OU QUE EU NÃO GOSTO DE LER, QUE EU FICO CANSADO, QUE NÃO HÁ ÓCULOS, QUE EU TENHO MUITA VIGIA, QUE AS CRIANÇAS NÃO ME DEIXAM DORMIR... TODAS ESSAS COISAS QUE AS PESSOAS LEVANTAM. NÓS PRECISAMOS ESTUDAR POR TODOS OS MEIOS.” E eu, em caixa baixa, cito outras frases do Che para a juventude: As pessoas devem trabalhar “ao som de cânticos revolucionários” e pregava diretamente para os jovens para eles se acostumarem a “pensar como massa e atuar com as iniciativas que nos oferece a classe trabalhadora e as iniciativas dos dirigentes supremos”.
Eu fico me perguntando, quem seriam estes dirigentes supremos? E daí surgiram os campos de trabalho forçado para reeducar pelo trabalho pessoas consideradas imorais pela revolução. “A Guanahacabibes [um destes campos] aqueles que não devem ser presos, aqueles que cometeram faltas contra a moral revolucionária de maior ou menor grau” disse o grande “humanista” Che.
Os campos de concentração cubanos abrigaram todos aqueles que não se encaixavam na ideia do “homem novo”, entre eles, gays, católicos, testemunhas de Jeová, alcoólatras, sacerdotes do candomblé cubano, e, mais tarde, portadores de HIV. A grande pergunta que se fazia e era a obstinação do Che era: “Como poderia o homem novo se libertar do capitalismo?” Como converter gays, prostitutas, proxenetas ou pederastas aos princípios socialistas, que prometia até curar o que, para alguns revolucionários da época (talvez o Che pela conjunto da obra) estes “comportamentos e doenças sociais?”
Por essas e outras, só em 1968, por denúncias internacionais, o governo cubano deixou de mandar gays para campos de trabalho forçado, e só em 1979 a sodomia foi retirada do código criminal cubano. Imaginem que beijos homossexuais em público davam cadeia por atentado ao pudor até 1997. Já pensou isto aqui no país? Iria acabar meu projeto de desfile da Papacagay em Bom Conselho, apesar de achar que certos exageros não é bom nem para os héteros.
Vejam senhores que o mesmo homem que incentivou perseguições por motivos artísticos e sexuais teve entre seus admiradores até John Lennon, sem contar a Mercedes Sosa e o Raul Seixas.
Médico ou Monstro? Depois tem mais, esperem um pouco para responder.